As referências ocultas em ‘Mãe!’, o novo filme de Darren Aronofsky

por Alan Basilio
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Se você ficou confuso ao assistir ‘Mãe!’, eu te entendo. Afinal, o diretor Darren Aronofsky (que é judeu) nos entregou um dos filmes mais controversos já produzidos até hoje. O filme é repleto de simbologia judaico-cristã para fazer qualquer cabalista ficar no mínimo curioso em decifrar os mistérios dessa obra. Mas é interessante notar que, embora existam referências religiosas no filme, elas não são explícitas e sim metafóricas, deixando a religião em um campo puramente simbólico.

Resumindo: o filme retrata um casal vivendo em um imenso casarão no campo. A jovem esposa, personagem de Jennifer Lawrence, passa os dias restaurando o lugar, que foi destruído por um incêndio trágico no passado. O marido, bem mais velho (Javier Bardem), é um poeta renomado que busca retomar a inspiração para a escrita. Os dias pacíficos do casal, no entanto, são abalados com as mais bizarras visitas que chegam ao local por diversos motivos, culminando em eventos desastrosos.

A seguir iremos dissecar o simbolismo oculto na obra. Se você ainda não assistiu o filme, atenção para o ALERTA DE SPOILER!

A Imperatriz - o terceiro arcano maior do Tarot de Waite.

A Imperatriz – o terceiro arcano maior do Tarot de Waite.

A MÃE

A MÃE representa a própria Mãe Natureza – A Deusa, Mãe do Mundo, a casa onde habitamos, o lar. De certa forma, ela flerta com o simbolismo da deusa romana do lar Vesta (a Héstia grega). A casa que ela cuida é uma representação do Paraíso, ou Jardim do Éden (Gênesis 2:15). No filme, ela cuida da restauração da casa – uma alusão a Gênesis 1:20-25.

Fazendo uma analogia com o tarot, essa personagem é uma representação viva do arcano  III – A Imperatriz.

Interessante notar que em vários momentos do filme a MÃE toma um misterioso pó amarelo diluído em água, nos momentos mais densos da trama. Aronofsky prometeu levar ao túmulo o significado dessa substância, mas deixou uma pista de que o pó amarelo tem a ver com literatura elizabetana. Seria então uma pista de que isso é uma referência ao livro Rei de Amarelo, de Robert W. Chambers? Acho que nunca saberemos…

Jennifer Lawrence vive a misteriosa MÃE

Jennifer Lawrence vive a misteriosa MÃE

O PAI – ou o POETA

O POETA no filme é chamado simplesmente de ELE – assim em caixa alta, como mostrado nos créditos. Retratar Deus como um poeta é algo bem conveniente: a escrita, desde tempos imemoriais, sempre foi associada aos Deuses. Recordemos da clássica imagem egípcia de Thoth – o escriba divino, Deus da Magia. O verbo, seja dito ou escrito, gera mundos através da ressonância da consciência. É algo perfeito para meditarmos.

Thoth – deus egípcio da magia e da escrita

O personagem do POETA, passa por um bloqueio criativo que só é quebrado com a chegada dos visitantes misteriosos que vão, aos poucos, abarrotando a casa e enfurecendo a MÃE. Primeiro chega o HOMEM (Ed Harris) e depois a MULHER (Michelle Pfiffer), representações de Adão e Eva (Gênesis 2:22). Ambos ficam apaixonados pela obra criativa do POETA e desobedecem o mesmo quando encontram um cristal misterioso, o tocam e o quebram (representando o fruto proibido, como visto em Gênesis 2:17). Logo após esse incidente, ambos são expulsos da casa pela MÃE, que é a expulsão do Paraíso.

Após serem expulsos, surgem mais dois personagens na casa. Esses são Caim e Abel. Após uma tensa discussão, Caim mata Abel brutalmente (Gênesis 4: 2-5).

Após tantas intrigas, o POETA e a MÃE resolvem ter um período de paz e concebem uma criança; essa é a chegada de JESUS (Mateus 1: 18-25) – a criança divina.

A Criança

O POETA retoma a criatividade e está escrevendo um novo poema – a Bíblia, ou talvez o Torah. Isso de certa forma mostra a importância que a crença exerce sobre o culto de uma determinada divindade, exercendo uma espécie de magnetismo entre o povo e a egrégora que é cultuada. A medida que o POETA vai escrevendo com fluidez, mais pessoas são atraídas pela sua influência e se identificando com seus escritos.

Cornelis van Cleve - Virgem e Criança (1550)

Cornelis van Cleve – Virgem e Criança (1550)

Após o sucesso do novo poema, centenas de pessoas, de várias partes do país, vão chegando e são convidados pelo POETA a entrarem na casa. Nesse momento tudo vira um caos e a MÃE pede várias vezes que as pessoas parem destruir a casa. Isso representa a intervenção humana na Natureza e a forma como trata o meio-ambiente.

O nascimento da criança alimenta ainda mais a idolatria em torno do POETA e isso resulta na cena mais perturbadora do filme, com a morte e canibalização da criança (Lucas 23: 1-46) –  uma espécie de eucaristia profana.

A dor pela perda do filho faz com que a MÃE não suporte mais a presença das pessoas no seu lar. Ela se revolta e incendeia a casa, destruindo a todos e a si mesma (Apocalipse 11:16-18).

O começo no fim

Amor é a Lei, Amor sob Vontade

Aleister Crowley

Após o incêndio da casa, o POETA explica porque aconteceu tudo da forma que aconteceu e revela sua verdadeira identidade. A MÃE entrega o seu coração para que sirva como base para a restauração da casa – a Terra (Apocalipse 21:5). O coração da MÃE aqui representa o Ágape, o amor divino e incondicional.

O final apocalíptico e denso do filme é praticamente um retrato nu e cru da Natureza, que não pode ser julgada como boa ou má. Não existe maniqueísmo na Natureza – Ela é o que é. Para construir o novo, o antigo deve ser destruído – e isso vale para tudo na vida. Podemos enxergar o mito do Apocalipse em várias mitologias ao redor do mundo: o Ragnarok nórdico, o Popol Vuh maia, a Kali Yuga védica, etc.

Com certeza, ‘Mãe!’ não é um filme de fácil digestão. Aronofsky conduz uma história impecável, do Gênese ao Apocalipse, em apenas 120 minutos. Sob uma ótica ocultista, o filme não deixa a desejar. Com certeza vale assistir mais de uma vez para captar melhor a essência do filme.

 

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