A verdadeira história de Tituba e a caça às Bruxas de Salém

por Luis Trindade
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A caça às bruxas em Salém, Massachusetts, é um fato histórico famoso e teve início com o surto de duas crianças na casa do Reverendo Samuel Parris. Gritando e se contorcendo, a sua filha Betty e a sobrinha Abigail, de 9 e 11 anos respectivamente, levaram o médico local William Griggs a concluir que ambas passavam por uma possessão demoníaca. No decorrer de poucas semanas, o vilarejo firmemente puritano foi varrido por uma onda de medo sob declarações dos líderes locais de que Salém estava sendo alvejada por armadilhas demoníacas.

Aproximadamente 200 pessoas foram acusadas de praticar a “magia do Demônio”, e a vida de 19 pessoas foi tirada na Colina da Forca. Mais de 300 anos depois a história continua nos fascinando e voltando à tona sempre que o medo e o preconceito ameaçam a decência moral da nossa sociedade. Mas ainda assim, raramente focamos na personagem central dessa história, aquela indígena sul-americana Tituba, que deu o argumento legal essencial para o início da caça às bruxas de Salém, segundo a historiadora Elaine G. Breslow em Tituba, Reluctant Witch of Salem: Devilish Indians and Puritan Fantasies

Tituba sendo presa. Gravura anônima do século XVII.
Tituba sendo presa. Gravura anônima do século XVII.

Como Tituba ganhou o apelido de “Bruxa Negra de Salém” e convenceu o pequeno vilarejo de que havia conspiração satânica contra o povoado, é algo obscuro para os historiadores em meio à lendas e registros tendenciosos e racistas.

Ao contrário do descrito por Arthur Miller em sua peça The Crucible, Tituba não era uma feiticeira africana, mas as evidências levandadas por Breslow apontaram que as origens de Tituba seriam de uma comunidade creole no norte da América do Sul, onde hoje fica a Venezuela, tendo ela e seu marido sido raptados e levados aos EUA para atender à demanda de escravos indígenas, como parte da resolução do problema da crise trabalhista em Barbados.

Ao chegar em Salém, Tituba tinha na memória as memórias de suas origens e de sua terra natal. Seu conhecimento multicultural já seria suficiente para levantar suspeitas, mas a cor de sua pele foi o maior sinal do compromisso com o mal aos olhos dos puritanos. Sendo ela tida como africana ou indígena, ambos serviam para confirmar o estigma satânico de Tituba, bem como para atiçar a imaginação e as fantasias dos puritanos, de acordo com Veta Smith-Tucker em Purloined Identity: The Racial Metamorphosis of Tituba of Salem Village.

Tituba foi presa acusada de enfeitiçar as duas crianças de Parris, juntamente com uma idosa, Sarah Osborne e uma mendiga chamada Sarah Good.

Apesar de negar às acusações de bruxaria, a mulher escravizada narrou um rico conto sobre feitiçaria que no último momento salvou sua vida.

Dadas suas condições, era como se Tituba soubesse que seria incriminada. Não que uma confissão fosse seu primeiro plano, mas interrogada uma vez mais pelo juiz da cidade, John Hathorne, ela chocou a comunidade alegando ter tomado parte em um pacto diabólico. “O demônio veio até mim e ordenou que eu o servisse” confessou ela.

Diante da corte estarrecida, Tituba narrou um rico conto confirmando o medo dos puritanos de que a maldade satânica se espalhava por Salém, listando personagens demoníacas, cúmplices animais e espíritos malígnos tentando destruir o modo de vida puritano em Salém, tudo de acordo com lendas inglesas: cães negros, gatos vermelhos, pássaros amarelos, e um homem alto grisalho que, vindo de Boston, a ordenou a assinar o livro do Diabo. Confessou beliscar as garotas de várias casas do vilarejo, sair à noite com varas junto com Osborne e Good, e descreveu até a existência de um coven malévolo em Boston, dando a perfeita evidência para os oficiais começarem a condenar os moradores de bruxaria.

Fonte de especulação por séculos, a confissão de Tituba pode ter sido uma maneira de escapar das punições intensas de Parris, que estava resoluto a arrancar dela uma confissão de culpa a qualquer custo, como aponta Breslow, de modo que confessar e ser presa se tornou preferível a sofrer os maus tratos.

A personagem Tituba, como apresentada na série americana Salem.
A personagem Tituba, como apresentada na série americana Salem.

De qualquer maneira, o que chama a atenção é que Tituba percebeu que seria menos arriscado confessar um pacto sobrenatural com o mal do que negar as acusações, percebendo que os puritanos detestavam mentirosos mas não recusariam um bom pedido por clemência, como provaram Good e Osborne ao negar até o momento final, condenadas à forca. Tituba, já se vendo tachada por sua ascendência, preferiu fazer uma confissão e retratação magistrais, que pudessem se alinhar com a doutrina puritana.

Tituba argumentou que as mulheres têm predisposição ao pecado e que ela, como escrava, estava pré-disposta à obediência. Se colocou como vítima, forçada a obedecer à vontade do mal, ainda que de forma relutante. Ela conseguiu convencer os puritanos de que quem confessa e se arrepende pode ser salvo. Um pedido apaixonado por perdão e declarando seu amor pela filha de Parris, Tituba conseguiu delinear a confissão perfeita aos puritanos. Estes não viram motivo em condenar alguém realmente arrependida, absolvendo-a.

Após sua confissão, Tituba foi absolvida por falta de provas em 9 de maio de 1693, passando 15 meses definhando na prisão de Boston, pois Parris não se compadeceu em pagar sua fiança. Em Abril de 1693, foi vendida à um desconhecido e desapareceu dos registros históricos. Ao contrário de uma mulher branca absolvida do julgamento de bruxaria, Tituba sendo uma mulher negra e já desgastada muito provavelmente não foi reintegrada à sociedade, aponta Veta Smith-Tucker.

Ainda hoje é difícil compreender a imensa habilidade de Tituba em converter circunstâncias fatais à seu favor. Sendo ela vista como uma grande contadora de histórias, uma imaginação fértil apenas não à livraria da forca. Com um testemunho cuidadosamente alinhado com os conceitos puritanos de raça, gênero e religião, Tituba conseguiu eliminar seus opressores, redirecionar a suspeita sobre a comunidade de Salém e resguardar sua vida. Ao passar da servidão para a sobrevivência, segundo Breslaw, ela foi capaz criar uma nova forma de resistência, aparentemente se submetendo aos seus opressores mas, secretamente, incutindo-lhes o terror de uma conspiração.

Fonte: Broadly

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